Os assaltos são o grande temor de quem recorre aos bacuraus da Região Metropolitana do Recife. Medo justificado por alguns pontos. Um é o pequeno número de passageiros nas viagens. O bacurau Jardim Piedade, que cruza Boa Viagem e Piedade, por exemplo, totaliza 94 passageiros em quatro viagens. A preocupação recai também sobre as paradas com iluminação deficiente. Até mesmo avenidas como a Domingos Ferreira e Mascarenhas de Morais apresentam o problema. Diante desses pontos, focados nessa última reportagem sobre o sistema de transporte nas madrugadas, os usuários montam seus próprios mecanismos de escape. Alguns, como Gabriel Dantas, mesmo tendo acabado o expediente, fica no trabalho até se aproximar a hora do ônibus. Outros, a exemplo de Carlos Alberto Ferreira, não cochilam um minuto sequer. E a qualquer desconfiança, desce paradas antes da sua. Duas adolescentes sinalizam numa parada praticamente às escuras. Como está habituado a trabalhar nas madrugadas, o motorista José Correia de Lima, 63 anos, freia sem qualquer preocupação. Mal as garotas sobem, vem a surpresa. Dois rapazes, de arma em punho, invadem o coletivo que teria como destino Águas Compridas. Um mantém o motorista sob a mira do revólver. Outro, auxiliado pelas iscas, faz o cata. O primeiro alvo foi o cobrador Artur da Silva, 39. Levam o que vêem pela frente. Uma semana após o crime, o motorista e o cobrador andam assombrados. Temem reviver os minutos de angústia. "O medo é grande, mas fazer o quê?", comenta José Correia.
De fato, não resta alternativa para quem trabalha nas madrugadas. É necessário conviver com pontos de ônibus mal iluminados, pouco policiamento nas ruas - especialmente na periferia - e viagens com raros passageiros. Situações que deixam os usuários, motoristas e cobradores ainda mais vulneráveis à violência. "A gente sobe no ônibus,pedindo a Deus para nos proteger", disse o barman Gabriel Dantas, 22. Morador de Cajueiro, ele trabalha no Pina, sendo obrigado a apanhar quatro ônibus. Dois na ida ao trabalho, dois no retorno para casa. A volta, como de costume, ocorre na madrugada. Nesse horário, justamente, ele passou por alguns sustos. Tanto dentro dos ônibus quanto nas paradas ou a caminho delas. Foram dois assaltos.
Gabriel reorganizou sua rotina por causa disso. "Costumo ficar no trabalho e saio somente quando está perto do horário do ônibus passar", contou. Quando sai, sempre anda em grupo. Apesar de andar com medo dentro dos coletivos, ele admite se sentir mais seguro do que nas paradas. O sentimento do barman pode ser mensurado, de certa maneira, na quantidade de assaltos em ônibus dos últimos seis meses. Em junho, a SDS registrou 212 casos, o maior índice deste ano. Os números foram caindo paulatinamente: 165, em julho; 164, em agosto; 143, em setembro; 104, em outubro. O mês passado teve apenas 91, o menor número de ocorrênciasdesde janeiro de 2006. A expectativa da SDS é reduzir os números de assaltos em ônibus este ano, 1.645 até novembro, em comparação aos do ano passado. Em 2006, computou-e 1.822 casos. O garçom Carlos Alberto Ferreira, 40, vive de olho no assunto depois de ouvir tantos relatos. Sai do trabalho tarde e prefere ficar em pontos bem iluminados, como a praça do Derby e o Terminal do Cais de Santa Rita, ponto de saída dos bacaraus. "O cais é mais seguro", pontua. Segundo a gerente de Programação, Taciana Ferreira, a Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) unificou o ponto de saída os coletivos da madrugada por questão de controle. "Mas, indiretamente, a organização contribui para a segurança do usuário. Fica muita gente em um só lugar", justificou.
O temor de Carlos Alberto é o percurso. Explica-se. Seguindo para casa, em Monsenhor Fabrício, refez o caminho mais de uma vez. A última experiência ocorreu no dia 14 de dezembro. Ele e alguns colegas descofiaram da movimentação estranha de dois rapazes edesceram antes da sua parada. Afinal, em uma linha cuja média de passageiros é 29 na madrugada, todos se conhecem. "Escapamos por um fio de cabelo", afirmou. Livrou-se do assalto, porém esticou o percurso a caminho de casa, que costuma ser maior devido ao itinerário do bacarau. "Foi melhor, mas quem depende de ônibus é assim: "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come", ironizou. Ao menos naquele dia, andou cerca de um quilômetro para chegar em casa, mas nada perdeu.
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